Trabalhadores do jornal Público anunciam greve contra despedimento colectivo

Trabalhadores do jornal Público anunciam greve contra despedimento colectivo

11-10-2012

Durante o plenário, os trabalhadores pediram a demissão da directora do jornal, Bárbara Reis. Foto: Mário Cruz/lusa

Os jornalistas ao serviço do jornal "Público" repudiaram ontem, 10 de Outubro, o processo de despedimento colectivo comunicado de manhã pela Administração da Empresa e mandataram os sindicatos para a convocação de uma greve. Maria do Céu Lopes, da comissão de trabalhadores do diário, disse ontem ao i que não há data para o pré-aviso de greve nem para a greve em si. 

O plenário já fora convocado na véspera, dia 9, e nele foi discutido o processo de despedimento colectivo que a empresa encetou, abrangendo 48 trabalhadores, dos quais 36 da área editorial e, entre estes, 28 jornalistas, processo esse que o Sindicato dos Jornalistas já repudiara (ver abaixo).

A moção aprovada pelos trabalhadores é do seguinte teor:

«Os trabalhadores do PÚBLICO, reunidos em plenário no dia 10 de Outubro, manifestam o seu total repúdio pelo despedimento colectivo acordado entre a administração e a Direcção Editorial.
Este despedimento inviabiliza a continuidade do PÚBLICO enquanto órgão de comunicação social de referência, viola o espírito do acordo celebrado com os trabalhadores a 29 de Dezembro de 2011, e compromete gravemente a responsabilidade social do accionista.
Os trabalhadores do PÚBLICO mandatam os sindicatos para iniciar de imediato um processo de greve e procurar formas de obstar ao despedimento anunciado.»

O jornal I adianta que:

«A decisão foi tomada após um plenário dos trabalhadores numa moção conjunta da comissão de trabalhadores e do conselho de redacção do jornal aprovada por maioria. Durante o plenário, alguns jornalistas pediram a demissão da direcção que assumiu ter começado a trabalhar neste despedimento em Março.

Os jornalistas classificam o processo de pouco transparente, na execução, nos objectivos, mas também nos critérios usados para a escolha dos jornalistas que deverão agora abandonar o jornal. Segundo o i apurou, quatro jornalistas que integram o Conselho de Redacção – que contestou as posições da direcção do diário aquando do caso das alegadas pressões do ministro Miguel Relvas a uma jornalista do diário – foram despedidos.

Por outro lado, o despedimento colectivo não abrange nenhum elemento da secção de cultura – ao único jornalista desta secção abrangido na reestruturação do jornal, Vítor Belanciano, assim como a António Cerejo e José Augusto Moreira terão sido propostas rescisões dos actuais vínculos contratuais para continuarem a colaborar com o jornal no regime de avença.

O facto de o objectivo ser reduzir os custos com pessoal em 2 milhões de euros anuais, mas de se manterem posições como a de correspondente em Washington é outro critério contestado.

No plenário realizado ontem no “Público”, a direcção do jornal, liderada por Bárbara Reis, justificou este despedimento como forma de preservar o diário, tendo assumido que a alternativa era o encerramento em Março.»

Segundo o Correio da Manhã, «o despedimento colectivo implicará o desaparecimento das editorias Local Lisboa e Local Porto, bem como da Agenda.» O jornal tem cerca de 240 funcionários, dos quais 190 jornalistas, que representam 12% dos funcionários da Sonaecom. 

De acordo com o jornal I, nos últimos relatórios financeiros da empresa é referida uma redução considerável nas receitas de publicidade do diário, “fruto da deterioração do ambiente macroeconómico”.  Neste mesmo relatório é referido, relativamente ao “Público”, que apesar de o jornal ser líder nas redes sociais, com mais de 250 mil seguidores, e das receitas digitais estarem a aumentar, “não foram ainda suficientes para travar a tendência negativa do mercado publicitário e das receitas de circulação da edição em papel.”

Ontem o Sindicato dos Jornalistas acusou o grupo Sonae e a Sonaecom – que tem como administradora executiva mais operacional no diário Cláudia de Azevedo, membro do Conselho Geral do “Público” – de sacrificarem quase 50 pessoas para não diminuírem os seus lucros.

Em comunicado divulgado durante a tarde de ontem, o Sindicato dos Jornalistas manifestou o seu vivo repúdio pelo que classifica de “processo inaceitável e iníquo”, e lembra que, “embora seja certo que as vendas do jornal têm vindo a cair”, não é menos verdade que os lucros da Sonaecom têm vindo a aumentar. Com efeito, em 2011 os lucros da Sonaecom foram de 62,5 milhões de euros, um aumento de 51,7% em relação a 2010, e cresceram 19,9% no primeiro semestre de 2012, para 38,1 milhões de euros. Um lucro que só não foi maior, enfatiza o SJ, devido a “reorientações estratégicas da holding”, que ainda ontem anunciou um “investimento de 222 milhões na rede de quarta geração móvel da empresa”. Para o SJ, que “está a acompanhar o processo, prestando todo o apoio aos seus associados”, esta empresa do rico universo da Sonae não hesita “em sacrificar quase meia centena de trabalhadores” só para não baixar os seus lucros.

O jornal Público, para além do comunicado da administração, não dá qualquer informação sobre a notícia que lhes diz respeito, o que não deixa de ser revelador do processo de censura interna subjacente que se deduz. 

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