595 empregadas de limpeza gregas: 11 meses de luta cerrada contra o governo e a Troika

595 empregadas de limpeza gregas: 11 meses de luta cerrada contra o governo e a Troika

20-09-2014

Por Sonia Mitralias*

Dispensadas em Setembro de 2013 e colocadas sob estatuto de «disponibilidade», despedidas ao fim de oito meses,  e após 11 meses de um longo e amargo combate, as 595 empregadas de limpeza da função pública tornaram-se a encarnação, o símbolo, a alma e a vida da resistência contra a política de austeridade na Grécia! Estas mulheres tornaram aos poucos «sujeito político» e líderes de toda a actual resistência contra a política da Troïka, ousando afrontar um inimigo tão poderoso como o governo grego, o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o FMI...

E no entanto, após 11 meses de luta, após terem desafiado e tornarem-se o inimigo principal do governo e da Troïka, depois de terem curto-circuitado a aplicação de medidas de austeridade, depois de uma presença mediática na cena política, as empregadas de limpeza em luta ainda não são consideradas como sujeito político pelos opositores da austeridade.

E no entanto, desde o início das medidas de austeridade infligidas pela Troika que as mulheres tomaram a rua em massa e a sua resistência parece ter uma dinâmica muito própria e rica de lições políticas.

Durante estes quatro anos de políticas de austeridade que transformaram a Grécia num amontoado de ruínas sociais, económicas e sobretudo humanas, falou-se muito pouco da vida das mulheres e certamente ainda menos das suas lutas contra o ditames da Troika. Por isso é com surpresa que a opinião pública acolhe esta luta exemplar feita inteiramente por mulheres. Mas será realmente uma surpresa?

Elas participaram em massa nas 26 greves gerais. No movimento dos indignados, elas ocuparam praças, acamparam e manifestaram-se. Elas estiveram na linha da frente na ocupação e autogestão da ERT (televisão estatal grega). Exemplares, elas eram a alma das assembleias de grevistas das administrações universitárias na educação e nas universidades contra a «disponibilidade», isto é, o despedimento após 8 meses com 75% do salário. 25 mil funcionários do Estado, na maioria mulheres, foram afectadas pelo «emagrecimento» dos serviços públicos. Elas constituem também a maioria esmagadora (95%) dos voluntários do Movimento de Solidariedade e dos dispensários autogeridos que tentam fazer face à crise sanitária e humanitária.

A participação massiva das mulheres, nos movimentos de resistência contra a destruição do Estado social pelas políticas de austeridade, não é portanto uma surpresa, não é fruto do acaso: primeiro, porque a condição das mulheres está no olho do ciclone da austeridade. A destruição do Estado social e dos serviços públicos fez explodir a sua vida: enquanto empregadas maioritárias da função pública e enquanto utilizadoras principais dos serviços públicos, as mulheres foram duplamente afectadas por todo o tipo de cortes. Elas têm pois mil razões para não aceitar a regressão histórica da sua condição feminina, que equivalerá a um verdadeiro regresso ao século XIX!

É verdade que inicialmente elas não se demarcavam como «sujeito político mulheres», partilhando as mesmas reivindicações e as mesmas formas de luta com os homens nos movimentos. Elas eram numerosas apenas.

Mas, já na luta pioneira contra a extracção de ouro na região de Skouries, em Chalkidi (norte da Grécia), opondo-se à multinacional canadiana Eldorado, as mulheres rapidamente se distinguiram pelas formas de luta e sua radicalidade. E se a imprensa e a opinião pública ignoravam a incidência da sua identidade de género na forma de lutar, a polícia não fazia o mesmo! Com efeito, a polícia anti-motim tomou como alvo particularmente as mulheres, utilizando uma repressão feroz e selectiva para aterrorizar toda a população através de ELAS, para aniquilar qualquer desobediência ou movimento de resistência. Criminalizadas, prisioneiras, elas sofreram violências humilhantes, mesmo sexuais e... específicas do seu corpo e do seu... género!

Numa segunda fase, as mulheres exprimiram-se por iniciativas e  formas de luta próprias.

Tudo começou quando, para impor a parte mais dura do seu programa de austeridade e satisfazer os compromissos relativos aos seus credores, o governo tomou como alvo prioritário as mulheres de limpeza do Ministério das Finanças, da administração fiscal e das alfândegas. Remeteu-as ao estatuto de «disponibilidade» desde o final de Agosto de 2013, o que significa que ficaram a receber três quartos do seu salário de 550 euros durante oito meses, antes de serem despedidas definitivamente. O governo seguiu exactamente a mesma estratégia que em Skouries. O objectivo: atacar primeiro os mais fracos e menos susceptíveis de serem apoiados... ou seja, as empregadas de limpeza, para em seguida remeter o grosso dos empregados ao esquecimento, para chegar a despedir 25 mil funcionários públicos! E isto no momento em que os movimentos de resistência estavam já sangrados pela austeridade sem fim, atomizados, fatigados, extenuados, vulneráveis...

O governo acreditava que – com «esta categoria de trabalhadores», as mulheres pobres de «classe baixa» com salários de cerca de 500 euros, e, pensavam, pouco inteligentes (daí o slogan das mulheres de limpeza: «Nós não somos mulas, somos mulheres de limpeza») – conseguiria rapidamente esmagá-las como moscas.

O objectivo era privatizar o trabalho das empregadas de limpeza e oferecê-las de presente às empresas privadas de limpeza. Estas sociedades mafiosas, conhecidas por serem campeãs da fraude fiscal, remuneram com salários de 200 euros por mês, ou seja, 2 euros por hora, com seguro parcial, sem qualquer direito laboral, o que equivale a condições de semi-escravatura.

Estas mulheres despedidas e sacrificadas no altar da antropofagia da Troika, estas mulheres de 45 a 57 anos, muitas com famílias monoparentais, divorciadas, viúvas, endividadas, com crianças a cargo ou maridos desempregados ou familiares deficientes, encontrando-se diante da impossibilidade de obter prematuramente a sua reforma, após mais de 20 anos de trabalho, e desprovidas de qualquer possibilidade de encontrar trabalho, decidiram não se deixar ficar. E tomaram as suas vidas em mãos!

Foi assim que um punhado de mulheres decidiu agitar as rotineira formas de luta dos sindicatos tradicionais. Algumas tomaram a iniciativa de se organizar por si próprias, um núcleo de empregadas de limpeza que já tinha lutado e ganhado, dez anos antes, o direito a contratos de longa duração. Elas trabalharam como formigas, tecendo pacientemente um teia de aranha à escala do país...

E como estas servidoras do Ministério das Finanças foram mandadas para a rua e porque fazer greve no seu caso já não fazia sentido, elas decidiram fazer um muro humano com os seus corpos, na rua diante da entrada do Ministério das Finanças na Praça Sintagma em Atenas, a praça que fica diante do parlamento, o lugar mais emblemático do poder...

Não é um acaso que sejam as mulheres a fazer nascer formas luta cheias de imaginação. Desconsideradas por causa do seu sexo e classe social, marginalizadas pelos sindicatos e sem ligações às organizações tradicionais da esquerda grega, elas tiveram que fazer barulho até serem ouvidas e compreendidas, tiveram que criar uma imagem para se tornarem visíveis!

As greves passivas, as jornadas de acção efémeras e ineficazes, foram substituídas pela acção directa e colectiva. Elas apostaram na não-violência, no humor e no espectacular. Usando coroas de espinhos na cabeça, na Páscoa, com a corda ao pescoço diante da sede do partido Nova Democracia, ou com música e com danças, elas reclamam: a recontratação imediata para todas! Tudo isto é inédito na Grécia...

Elas ocupam e bloqueiam o acesso ao Ministério, e sobretudo elas perseguem os membros da Troika quando querem entrar no ministério (!) obrigando-os a fugir a correr e a usar a porta de serviço, junto com os seus guarda-costas. Elas afrontam e batem-se corpo a corpo com as unidades de polícia especial. Todos os dias, elas inventam novas acções, que são acompanhadas pelos média, e alertam toda a população: em suma, elas quebram o isolamento. E assim é que, aquilo que habitualmente é representado por estatísticas sem vida e sem alma, pelos números dos recordes do desemprego e da pobreza, eis que estas «abstracções» se humanizam, adquirem um cara, tornam-se mulheres de carne e osso, que além disso têm personalidade e vontade política próprias. Elas chamam-se Litsa, Despina, Georgia, Fotini, Dimitra… E com o seu exemplo, a sua coragem, a sua perseverança, a sua raiva de vencer, elas devolvem esperança a todas as vítimas da austeridade...

Mas atenção, as forças anti-motim brutalizam quase quotidianamente estas mulheres, para dar o exemplo, pois os patrões temem o contágio. E é toda a Grécia que assiste ao triste espectáculo destas mulheres, muitas já de idade avançada, que, dia após dia, são pisoteadas, maltratadas e feridas pelos Rambos da polícia, que poderiam ser seus filhos! E porquê? Porque a própria Troika quer abatê-las, pois são exemplo a imitar por todos os oprimidos, pois são a ponta da contestação anti-austeridade, não somente na Grécia mas em toda a Europa. Porque a sua luta pode tornar-se contagiosa...

*Sonia Mitralias é membro de «Mulheres contra a dívida e as medidas de austeridade» na Grécia.

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Artigo factual da responsabilidade de quem o assina.
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