Siliana faz da Primavera uma realidade longínqua

Siliana faz da Primavera uma realidade longínqua

17-12-2012

A fuga do ditador Zine El Abidine Ben Ali para a Arábia Saudita, em Janeiro de 2011, foi celebrada como o início do calendário da Primavera árabe. Mas, após este acontecimento, pouca atenção se deu aos desenvolvimentos ocorridos na Tunísia, que vive dias tremendamente difíceis.

A Tunísia vive num impasse. O fim da ditadura de Ben Ali não trouxe o progresso que a população tunisina anseia e a instabilidade que o país atravessa apresenta-se como um factor de grande preocupação. Os confrontos que se verificaram na cidade de Siliana, pela sua dimensão, demonstram os enormes desafios que a Tunísia tem pela frente. No entanto, a firmeza da população desta cidade na defesa das suas reivindicações poderá também servir de estímulo a todos os tunisinos. Por enquanto, serviu para que mais pessoas soubessem que, na Tunísia, já não é Primavera.

Um caso sintomático: a revolta dos habitantes de Siliana

O que aconteceu no passado dia 29 de Novembro ilustra o ponto a que chegou um país que, ainda há bem pouco tempo, sonhava com uma era de progresso. Em Siliana, uma cidade tunisina situada a 170 km a sudoeste da capital Tunes, ocorreram grandes confrontos entre polícias e manifestantes, precedidos de três dias de grande instabilidade nas ruas desta cidade.

Estes confrontos iniciaram-se com o apedrejamento de uma esquadra da polícia de grande dimensão, tendo a polícia, como resposta, recorrido à utilização de veículos blindados, lançado gás lacrimogéneo e disparado balas de borracha.

À rápida reacção policial, responderam os manifestantes através do uso de cocktails Molotov e construção de barricadas. No entanto, os manifestantes acabaram por sofrer um endurecimento da violência policial, que feriu gravemente cerca de 300 manifestantes, dos quais 17 ficaram cegos pelos disparos da polícia. Esta quantidade de feridos fez com que muitos tivessem que ir para hospitais de cidades vizinhas. Um dos feridos da carga policial foi David Thomson, jornalista da RFI (Radio France Internationale) e do canal France 24, que se fazia acompanhar por um colega tunisino que também ficou ferido.

As reivindicações dos manifestantes de Siliana prendem-se, essencialmente, com o seguinte: pedido de renúncia do governador da cidade; combate à pobreza; combate ao alastramento do desemprego, motivado pela queda de 66% da criação de postos de trabalho na região desde o início do ano; e com a libertação dos manifestantes presos em manifestações anteriores, muitos deles detidos desde de Abril de 2011.

Perante a ausência de resposta aos anseios dos habitantes de Siliana, o clima conflituoso que já se vivia na cidade agravou-se, abrindo caminho para o desespero e, por consequência, para a violência.

O caos que se seguiu levou à intervenção do exército, que, chegado à cidade, foi recebido com muita alegria pelos manifestantes e habitantes, que gritavam «sacrifico o meu sangue e a minha alma pelo exército». É importante não esquecer que a polícia é conotada com a repressão que se vivia na ditadura, ao passo que o exército é visto como uma força que protege o povo.

Uma vez que o governador da cidade se manteve no poder e o governo tunisino nada fez para responder aos anseios dos manifestantes, praticamente toda a população de Siliana abandonou a cidade para, como disse um dos habitantes, «deixar o governador governar uma cidade de fantasmas». Para reforçar o impacto desta decisão, a população de Siliana iniciou uma marcha rumo à cidade de Tunes, no dia 30 de Novembro.

Vale a pena lutar: a demissão do governador e a retirada da polícia

Face a esta situação, o governo tunisino apressou-se a chegar a um acordo com os sindicatos. Após este acordo, o governo pressionou o governador da cidade, Ezzine Majjoubi, para que este se demitisse, o que acabou por acontecer. Através de uma luta intensa da população, o governo foi obrigado a ceder a uma das principais reivindicações - o afastamento de Majjoubi.

Mas os resultados da luta da população estenderam-se também ao acordo alcançado entre os sindicatos e o exército, através do qual a polícia teve que se retirar da cidade, ficando o exército responsável pela sua segurança. Néjib Sebti, o secretário-geral da UGTT, principal sindicato tunisino, apontou este acordo como «muito importante», tendo denunciado «a repressão sofrida pelos manifestantes pacíficos». O secretário-geral da UGTT afirmou que «os habitantes de Siliana mais afectados pela pobreza nunca se irão ajoelhar», acrescentando ainda que estas pessoas estão «dispostas a morrer pelos seus direitos».

Por seu turno, o primeiro-ministro tunisino centrou a sua intervenção na condenação dos ataques dos manifestantes às forças da ordem.

A alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, Navi Pillay, emitiu um comunicado onde expressa a sua «inquietação perante os violentos distúrbios», condenando «o recurso excessivo e desproporcionado da força» pela polícia. Pillay acrescentou que «a liberdade de expressão e de reunião são direitos humanos fundamentais que devem ser protegidos e respeitados», tendo também felicitado o governo tunisino pelo anúncio da abertura de uma comissão de investigação dos confrontos em Siliana.

Divórcio entre os poderes públicos instalados e os anseios da população

Em muitas cidades tunisinas saíram à rua milhares de pessoas em solidariedade com a população de Siliana, tendo-se registado ataques às sedes do Partido Ennahda. Este partido islamita moderado, que venceu as primeiras eleições livres na Tunísia, continua a ter muito poder no país, dominando um conjunto de ministérios, como o da justiça ou o das relações externas.

Na verdade, a luta contra a pobreza e o fim da repressão policial constituíram reivindicações cruciais da revolução tunisina, pelo que, ao assistirmos à continuidade dessas realidades, assistimos também ao crescimento dos anseios da população tunisina. Os confrontos de Siliana tiveram um impacto tão grande que o presidente tunisino, Moncef Mazouki, se reuniu de emergência com o primeiro ministro, Hamadi Jebali, e com o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Mustafá Ben Jafar.

Paralelamente ao bloqueio político que se vive neste país, onde a elaboração de uma constituição continua por se concretizar, desenrolam-se inúmeras manifestações que, muitas vezes, degeneram em conflitos violentos, muitos dos quais motivados por grupos salafitas. Toda esta convulsão político-social evolui quando nos aproximamos do dia 17 de Dezembro, no qual se irá celebrar o segundo aniversário da revolução de Jasmim, marcada pela auto-imolação do vendedor ambulante Mohamed Bouazizi, na cidade de Sidi Bouzid.

De facto, a economia tunisina está muito debilitada, estando o governo desesperadamente à procura de investimento estrangeiro. A frágil recuperação do sector turístico, uma das principais apostas da ditadura de Ben Ali, prejudica muito o desempenho económico tunisino. O presidente Moncef Marzouki, através de um discurso dirigido para à nação, afirmou que «o país se encontra numa encruzilhada». Para além desta afirmação, Marzouki acusou o governo, liderado por Hamadi Jebali, de ter um «rendimento insuficiente» perante os desafios que o país enfrenta, demonstrando o seu receio de que o país «piore» e a situação «se torne caótica».

Jebali, um importante membro do partido Ennahda, disse que está fora de hipótese que o governo se demita e acusou os movimentos de esquerda de promover a desordem pública, inclusivamente o que aconteceu na cidade de Siliana.

Desta forma, o futuro da Tunísia apresenta-se incerto e imerso numa instabilidade que teima em continuar.

Fontes
Editores: 
Este artigo contém informação proveniente de meios de comunicação comerciais; a sua fiabilidade não é garantida.
Secção: 
Etiquetas: